Roujin Z: exemplo de desordem moderna!

Uma cama multi-uso para ajudar os que mais precisam, uma solução moderna para problema moderno. Mas o que acontece o quando seu computador ganha vontade própria?

Estamos de volta, depois de um longo hiato (que não foi planejado, mas o mundo real chama). Aqui vamos pegar um longa animado, digo que é trintão e acredito que seja um trabalho bastante interessante tanto pela trama quanto pelo tema.

Bom, mas para falar dele, vamos fazer uma abordagem nada convencional. Afinal de contas, neste blog as coisas não tem certo padrão. Então, para falar de Roujin Z (1991) vamos primeiro fazer… um merchan. A direção de marketing deste blog vai apresentar algo que promete revolucionar a ciência e a sociedade (como se tal direção existisse). O que vem a seguir é a apresentação do produto revolucionário para um público… (nem sei se hoje impressionaria tanto…)

Apresentando o produto

Pessoal, este é o projeto Z!

Sim!

O salvador de uma nação!

Sim, sim!!!

A descoberta genial do século!!

Nãaaaaaaoooo!

Sim! Com o objetivo de dar uma vida mais digna para o pessoal da terceira idade, esta máquina oferece com a alta tecnologia todo o tipo de conforto para o paciente. Possui um avançado sistema que permite desde um confortável banho e auxílio nos afazeres orgânicos, além de oferecer entretenimento e atividades físicas ideais. Além do mais, conta com estoque de comida pra uma semana e um sofisticado sistema de diagnóstico que monitora determinado corpo ancião. Mas isso não é só. Quando terminada a fase de testes, o Z-001 será produzido em larga escala e então imagine o fim de todos os problemas!

Acho que um pouco mais

Acabamos de comunicar que a futura produção do Z-001 foi suspensa por tempo indeterminado, devido a problemas “técnicos”. Vamos esperar o fim das investigações para tomar as devidas atitudes.

história

Agora falando sério, a situação da referida história é em um universo aonde o sistema de saúde do Japão passa por uma crise de recursos e lotação, e um problema em especial causa mais transtornos: atendimento aos doentes graves, especialmente os da terceira idade. Para enfrentar um possível colapso, o governo resolve investir em um sofisticado projeto: o Project Z. Trata-se de uma cama computadorizada multi-recursos, desde um banho até um mapeamento completo de sua saúde, claro ele extrapola algumas de suas funções para simular um cuidador.

O voluntário para a introdução da máquina é o Kijuro Takazawa, um senhor octogenário já com a saúde extremamente debilitada e que está sob os cuidados de Haruko Mihashi (já vi em algumas fontes Mitsuhashi, estou me baseando através do que ouvi no longa), uma dedicada e esforçada estudante e enfermeira voluntária. Apesar da empolgação da mídia com o projeto, a garota é cética pois entende que cuidados com pacientes neste estado estão muito além de higiene, alimentação e atividade física, digamos.

Porém, a situação toma um rumo inesperado, e em certo ponto sinistro. Haruko e seus colegas percebem que os computadores aonde trabalham replicam insistentemente o nome dela, como que um S.O.S. Deduzindo que seu paciente está desamparado e que é ele o responsável por isso, Haruko corre para tentar ajudá-lo, encontrando resistência por parte de Takashi Terada, colaborador que trabalha para um Ministério do Bem-Estar Público (nome bonito para algo estatal…) e Yoshihiko Hasegawa, um dos projetistas, que acreditam no sucesso da empreitada. Na confusão, a cama… ganha vida própria.

A partir disto, a desordem começa. Haruko tenta através de meios disponíveis ajudar o sr. Takazawa a sair desta enrascada, enquanto o sr. Terada toma ciência de que aquela cama, na verdade, faz parte de um obscuro projeto governamental, com caráter bélico!

Temas

Posso dizer que o filme já chega “chutando portas”, pois já joga um dos problemas centrais, que seria o tratamento aos idosos. O sr. Takazawa aí é um mero “voluntário”, nem sinal de sua família, que segundo o sr. Terada deu permissão para ele ser testado. Cadê o contrato? Cadê seus familiares? Seria abandono ou uma tentativa de ajudá-lo? Só se percebe que a única pessoa interessada em seu bem-estar é aquela que o conhece melhor nessas circunstâncias, que é sua cuidadora Haruko!

Haruko encontra outros semelhantes ao sr. Takazawa. O papel deles é vital no filme

Enquanto nosso paciente passa por um tremendo mal-estar naquela cama, outros anciões se aproveitam de um certo desleixo ou vista grossa de enfermeiros e usam computadores para “brincar”. Pode até parecer traquinagem, mas acidentalmente descobre-se nessa parte que a terceira idade possui um trunfo poderoso: sabedoria. Aliada a lucidez, então, seus benefícios são imensos.

O filme, como ficção científica, entra na clássica interface homem-máquina: a cama possui um avançado computador, que por dedução possui Inteligência Artificial, já que ele aprende a tomar decisões. O software de voz, usado por Haruko e pelos hackers, também é um exemplo dessa relação, e por ironia o computador resolve assimilar a característica, assim como os pensamentos de seu hospedeiro!

(Da esquerda pra direita) Haruko, sr. Terada e Hasegawa

Por consequência, um outro assunto vem à tona, e neste não entrarei em grandes detalhes, pois ele é mais implícito e sua abordagem é bastante delicada. Só digo que, aparentemente, projetos com cunho militar são meio que tabus em terras nipônicas desde a Segunda Guerra Mundial. Terada e Hasegawa claramente tem pensamentos distintos, um tem boas intenções e o outro é um grande de um teimoso!

Com a abordagem do envelhecimento, laço familiar também é um tema que aparece, embora em pequenas doses. Takazawa é viúvo, e sente falta da esposa. Com possíveis sinais de demência, associa a voz vinda da cama com a de sua saudosa mulher, e seus pensamentos acabam passando pra máquina, que passa a se comportar como se fosse aquela. Outro detalhe: Haruko, como dito em um trecho, perdera a avó anos antes, provavelmente era alguém querida por ela, e por isso tem tanto afeto pelo paciente.

ficha técnica

Quando li a respeito de Roujin Z, o primeiro nome que chamou minha atenção foi o do roteirista:

  • Katsuhiro Otomo. O criador de Akira, além de assinar a história, também contribuiu com o desenho das máquinas.
  • Mitsuo Iso (Ghost In The Shell, The End of Evangelion), auxiliou o anterior na parte de robôs.
  • Hiroyuki Kitakubo é o diretor do filme. Este, além de participar da produção de Akira, dirige um dos segmentos de Robot Carnival, projeto que também conta com Otomo. O trabalho mais reconhecido de Kitakubo é Blood: The Last Vampire, chegou a ser premiado pelo curta.
  • Hisashi Eguchi é o artista por trás dos personagens, criador de Stop!! Hibari-kun!.
  • Satoshi Kon (Perfect Blue, Patlabor 2 – filme, JoJo’s Bizarre Adventure – OVA) é o responsável pela direção de arte.

Na dublagem, dá pra observar nomes conhecidos:

  • Koji Tsujitani (Ken Kubo – Otaku no Video)
  • Rica Matsumoto (Satoshi – Ash – de Pokemón, Arthur G6 de Fiveman, dentre outros)

Os personagens de ambos acima eram coadjuvantes na trama, Maeda e Sato respectivamente, núcleo cômico da trama.

  • Chisa Yokoyama – Haruko (Lucrezia Noin – Gundam Wing, Chun-Li – Street Fighter II Victory, Chiaki Enno – Zenki)
  • Shinji Ogawa – Sr. Terada (Possui um currículo até vasto, Patlabor, participações em Saint Seiya, Record of Lodoss War, entre outros).

Trilha Sonora:

  • Bun Itakura é o responsável pelas trilhas do filme, diria que são exóticas para a atmosfera do longa.
  • Mishio Ogawa é quem canta a música final.

Algumas produtoras participantes: Sony, TV Asahi, Movic, entre outras.

impressões

Não vou mentir, Roujin Z não é tão encantador, diria que é um filme com uma premissa bem interessante mas peca por não evoluir a história de maneira satisfatória. Admito que o que me atraiu para acompanhar a animação foi o fato de ter Katsuhiro Otomo na equipe, pois espera-se algo no mínimo grande quando se tem o criador de Akira no meio… mas pra quem criou o segmento “Stink Bomb” em Memories (1995), algumas doideiras também acontecem.

Só que eu recomendo o filme! Ele é bom na medida do que ele entrega. Graficamente ele é bem feito, ação em uma dose satisfatória principalmente na perseguição a máquina. Não dá muito pra se apegar a algum personagem, é tudo meio que um hospício, diria que por isso Haruko funciona excelentemente bem como protagonista, pois é uma das poucas pessoas com algum bom senso ali. Talvez a máquina… sim, ela também possui algum senso humano, pois protege seu hospedeiro e se importa com ele até o momento em que perde sua consciência.

Os temas também promovem certas reflexões, principalmente na questão da atenção com os mais velhos. Os defeitos promovidos em função do envelhecimento são mostrados de modo até acima do real, mas o filme não deixa de lado a experiência trazida com a idade, mostrando também um lado saudável deste fenômeno. Seu cunho político também aparece, o Estado é muito cabeça-dura, boas idéias mas implementação bagunçada senão desastrosa, e claro algumas cabeças pensam demais.

Um filme com um roteiro promissor mas que entrega somente um basicão, porém entrega bem! Está um pouco a frente de sua época, envelheceu bem pois os problemas dali são bem modernos, e as soluções modernas…. acho que não chegam ao nível de uma cama, mas ainda são protótipos de soluções. Em pouco mais de uma hora e meia você consegue conferir bem, sem arrependimentos.

Até mais, fui!

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